Vergonha!

A Audiência Pública vista pelo chargista Santiago.

A Audiência Pública de 2007 vista pelo chargista Santiago.

Integrantes do Porto Alegre Vive protestam na Audiência Pública realizada em 26 de maio de 2007.

Veja detalhes aqui:

Protestos marcam audiência pública de revisão do Plano Diretor


 

Associações e Movimentos pensavam que seriam ouvidos. (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

Associações e Movimentos pensavam que seriam ouvidos. (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

O dia foi de confusão e protestos na audiência pública de revisão do plano diretor de Porto Alegre, que aconteceu no salão de atos da UFRGS. A reunião começou com mais de duas horas de atraso e muita gente ficou de fora. De 454 sugestões, 107 foram votadas. As demais serão avaliadas no próximo sábado.Empresários do setor da construção civil eram contrários à redução da altura de prédios. Moradores e ambientalistas temiam e degradação da cidade. A dispensa de estudos de impacto para a construção de prédios com altura maior do que o permitido recebeu o sim da maioria.

Associações de bairros, unidos pelo Movimento Porto Alegre Vive, encaminharam moção de repúdio à prefeitura e ao Ministério Publico Estadual. O grupo é contra a forma de discussão das propostas.Ambientalistas reclamaram que a audiência foi comprada, já que muitos admitiram que não sabiam o porquê estavam no local, aumentando a suspeita de que poderiam ter sido recrutados.
O Secretário Municipal do Planejamento, José Fortunati, discorda das reclamações e afirma que as sugestões foram bem apresentadas. Segundo ele, é normal a organização de associações e sindicatos levarem “moradores que sequer sabem o que é o Plano Diretor”. Ele chegou a comparar a situação à rotina da Câmara dos Deputados.
Após a votação de todas as sugestões, um ante-projeto com as propostas será encaminhado ao Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental. Depois, o prefeito José Fogaça elabora um projeto de lei e repassa à Câmara de Vereadores para votação até o final de julho.Do ClicRBS/RÁDIO GAÚCHA

Vale a pena ler:

“Eles que não me venham com sopa”

Elmar Bones (jornal Já)

Sábado, oito da manhã, temperatura de oito graus. Uma fila de 400 metros
serpenteia entre os prédios do campus central da Universidade Federal,
em Porto Alegre.

Na ponta, junto à porta do auditório que recém abriu, está o povão:
mulheres da periferia com suas roupas surradas, operários com seus bonés
e suas caras cansadas, jovens que parecem ter vindo de um baile funk…
uma mistura heterogênea que ocupa dois terços da fila. Trazem na mão a
carteira de identidade e uma conta de luz ou telefone, para comprovar a
residência.

No terço final, a classe média e acima: senhoras de casaco de couro,
senhores de sobretudo e luvas, estudantes de classe média, professores,
engenheiros, arquitetos, advogados, funcionários públicos… Muitos
trouxeram seu chimarrão. Conversam em grupos, discutem os folhetos que
estão sendo distribuídos.

Uma das senhoras elegantes se exalta: “É um absurdo, essas pessoas foram
arrebanhadas e trazidas, nem sabem porque estão aqui”. Ela mostra um
panfleto que o sindicato da construção distribuiu convocando os
operários para as sete horas da manhã. “Vão encher o auditório, aí
ninguém mais entra”.

Na ala da periferia pode-se ver um mulato de gorro, jaqueta de nylon e
calça de abrigo portando seu violão. Ele parece inquieto: “Enfrentá esse
filão, já pensou?”. Outro comenta “Se amarrá muito, eu vou vazá”. Um
terceiro, de cabelo rasta, chega perguntando. “O bagulho é aí dentro?”.

Duas donas de casa conversam. “Deixei o tanque cheio, poderia tá
aproveitando esse solzinho”. A outra diz que também está pensando em ir,
“mas só depois do almoço”. Uma terceira que ouve o diálogo intervém.
“Por favor, né? Não me venham com sopa”.

A fila começa a andar lentamente, à medida que as pessoas vão entrando e
recebendo seus crachás. Novos grupos vão chegando. “Quantos vieram?”,
alguém pergunta. Um homem com uma planilha na mão responde: “Cinco
ônibus com 40 cada um”.

No pequeno stand que o sindicato instalou junto à entrada, os
coordenadores recebem instruções sobre a distribuição dos tickets para o
almoço. “É para entregar na saída para quem tiver com o crachá”. Um
outro leva, mais um grupo para o café da manhã.

Eles atravessam a rua e entram no parque, onde uma Kombi da Nutricional
Refeições Coletivas está estacionada. Recebem o lanche e se espalham
para comer entre as árvores. Uma moça puxa a colega pelo casaco, para
voltarem. Outra que vem chegando, tranqüiliza: “Aquilo lá antes das onze
não começa”.

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