Referendo ou consulta?

Mais um excelente texto de Juremir Machado da Silva no jornal Correio do Povo:

Filho nunca entende

(Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 13/02/2009)

João Pinto é desses pais modernos. Não dá palmada, acredita na mesada como fator de responsabilidade e aposta no diálogo. Acha que pode explicar tudo para os filhos. Mal eles começam a falar e o pai zeloso tenta incutir-lhes noções de cidadania. João tem quatro rebentos. Ontem ele teve a seguinte conversa com Fabíola, uma cidadã de apenas 10 anos:

– Os vereadores defendem os interesses da cidade, Fab.

– Mas eles não votaram a favor do Pontal, pai?

– Votaram, mas em seguida foram nobres e propuseram ao prefeito que vetasse o projeto aprovado por eles mesmos.

– Pediram ao prefeito que “desvotasse” o que eles tinham votado contra a vontade de muita gente, né, paizinho?

– Essa palavra não é boa, Fab. Na verdade, ela nem existe. Eles deram ao prefeito uma boa sugestão.

– Aí o prefeito aceitou a boa sugestão deles, que ficaram muito chateados e ficaram empurrando com a barriga a confirmação do que tinham sugerido, tentando encontrar um modo de “desvotar” o “desvoto” do prefeito, né, pai?

– De jeito algum, filha, tanto que por maioria absoluta eles confirmaram o veto do prefeito, com muita coerência.

– Hummm… Mas eles não tinham sugerido um referendo ao prefeito? E o prefeito não aceitou essa idéia? Por que querem transformar o referendo em consulta popular? O referendo já não é uma consulta bem popular?

– É que o referendo custa caro, Fab, e leva tempo.

– Ah, pai, e antes de sugerir isso ao prefeito eles não tinham pensado nos custos e no tempo que ia levar? Vereador é meio lento pra pensar, né, pai?

– Eles agiram bem, Fab. Temos de elogiar.

– Mas não agiriam melhor ainda se parassem com tanta pressa e organizassem com calma o referendo combinado?

– A política é mais complicada do que isso, Fab. Certas coisas importantes da vida de uma cidade grande exigem celeridade ou provocam muita insatisfação nas pessoas.

– Celeridade vem de celerado, né, pai?

– Não, filha, melhor esquecer essa palavra.

– A maioria da população tem pressa na votação, pai?

– Não, Fab, a minoria. A consulta popular também é uma forma muito importante de participação democrática.

– Quer dizer que sem referendo e com consulta popular mais gente vai poder participar, opinar, votar e decidir, pai?

– Não, filha, certamente menos.

– Pai, acho que estou confusa. Então menos é melhor do que mais? Não daria para construir também um conjunto de casas populares bem bonitinhas na beira do rio?

– Não, filha, isso daí já é ideologia. O que andam te ensinando na escola? Eu disse pra tua mãe tomar cuidado.

– Pai, os vereadores coerentes que aprovaram o “desvoto” do prefeito não vão “desvotar” o referendo, né mesmo?

– Vai depender da consciência de cada um, Fab.

– A consciência pode mudar toda semana, pai?

– É um pouco mais complicado, filha…

– Tá difícil de entender, pai. Adulto é meio confuso.

“Basta!”, eu disse para o meu amigo João Pinto, que tomou um susto. Não quero mais ouvir. É por isso que eu não tenho filhos. Saco! Filho nunca entende nada.

……………………………………………………………..

Lembrando a “Audiência Pública” em maio de 2007,  vejam  e escutem bem o que foi dito:

Um pensamento sobre “Referendo ou consulta?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s