Brutal, revoltante!

Brutal Revoltante - Flavio Tavares

Flávio Tavares: Brutal, revoltante

Consumada a tragédia, além do pranto e da solidariedade, resta agora o caminho mais árduo: encontrar os assassinos diretos e indiretos. Sim, pois na tragédia de Santa Maria os culpados transformam-se em assassinos, em autores de um homicídio coletivo.

Não se equivocaram ou cometeram um simples erro, enchendo os salões além da lotação máxima habitual. Sabiam que não havia saídas e nunca se interessaram em resolver o problema. Programaram a atração de um fogaréu nos salões para atrair mais gente, mesmo sabendo que fogo se propaga. Tudo foi feito como se fosse premeditado.

Armaram o cenário da morte, mesmo dizendo (ou pensando) que queriam divertir. Os fiscais municipais “deixaram por isto”, pois a burocracia só cuida dos papéis e, nos papéis, tudo se contorna com propina. “As licenças estavam em ordem”, dirá, certamente, a prefeitura ou quem de direito. E daí?

Onde estava, porém, a responsabilidade empresarial? O correto empresário não vende água como se fosse leite, à espera de que o poder público, ao fiscalizar, alerte que água não é leite… Em Santa Maria, agora, tudo se juntou — sanha de lucro fácil, desídia e irresponsabilidade dos donos da boate além da fiscalização municipal carcomida pelo desleixo ou pelo suborno.

A tragédia exige pensar a fundo e indagar sobre a sociedade de consumo e seu hedonismo, que transforma tudo em mercadoria de venda fácil. Até a vida de mais de duas centenas de jovens que buscavam relaxar e e divertir-se. Esta tragédia não é apenas dramática e brutal, é revoltante.

 

Flávio Tavares

Escritor e jornalista

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5 pensamentos sobre “Brutal, revoltante!

  1. Caro Flávio Tavares
    Um jornalista da tua estatura não deveria cair no lugar comum que estás caindo neste momento, simplesmente porque os fatos que ocorreram e continuam a ocorrer em Santa Maria são bem mais graves do que responsabilidades individuais que citas no teu artigo.
    Primeiro, o que se fala em termos de segurança é que um acidente ocorre não por um único motivo, ou seja, salas de espetáculos lotadas acima de sua capacidade e princípios de incêndio ocorrem várias vezes sem que ocorra tragédias de dimensões épicas como a ocorrida em Santa Maria. Talvez não tenhamos noção neste momento, mas o evento de Santa Maria é atualmente o terceiro maior acidente do gênero na história mundial, logo não é simplesmente pelas fúteis razões que enumeras que ocorrem fatos como estes. A grandiosidade da tragédia supera em muito a compreensão de todos no momento.
    Segundo, e mais grave, o fato ocorrido é simplesmente um sintoma de uma sociedade que se expande e simplesmente as normas legais não acompanham esta expansão. Talvez as palavras que insistentemente o prefeito da cidade de Santa Maria está pronunciando nos meios de comunicação estejam certas. Que a boate estava de acordo com as normas de segurança exigidas. Este que é o espanto, as normas de segurança exigidas estão totalmente defasadas da realidade atual.
    Existe no Brasil, um país que durante anos teve que se preocupar com o dia seguinte e não com os anos que hão de vir, uma tal deficiência em políticas públicas de prevenção de desastres que nos deixa longe de sermos um país moderno. Se há uma cheia, se ocorre deslizamentos ou se acontece qualquer acidente de vulto que há alguns anos não ocorrem, revoam autoridades públicas Federais, Estaduais e Municipais, procurando culpados ou simplesmente levando a solidariedade às vítimas ou parentes das vítimas. Passado o impacto do ocorrido se criará um grupo de trabalho que definirão leis para o caso e após isto todos dormirão sossegados até o próximo evento traumático, quando ocorrer este, o circo será montado de novo e a solidariedade de todos comoverá e diremos que somos o povo mais solidário do mundo.
    Temos que adotar posturas profissionais perante a os diversos tipos de acidentes que podem e irão ocorrer, se por exemplo as normas de segurança estaduais e municipais previssem saídas e iluminação de emergência provavelmente mesmo com a boate lotada, mesmo com o espetáculo pirotécnico indevidamente feito no local o número de óbitos seria de se lamentar, mas não passaria de uma dezena. Se por outro lado, fosse previsto em casas de espetáculos acima de determinada lotação redes de sprinklers (coisa já obrigatória em muitos países) o número de óbitos ainda seria menor. Se além de tudo isto fossem colocados detectores de fumaça e houvesse uma brigada de incêndio da própria boate, devidamente treinada, talvez nem o espetáculo necessitasse ser interrompido.
    Veja são hipóteses de proteção que evitam que imponderáveis, como ascender uma tocha dentro de ambiente inadequado, transformem uma tragédia num mero incidente. Não podemos culpar uma fiscalização ineficiente, um empresário desonesto, ou mesmo os próprios alunos que também no afã de amealhar mais dinheiro para a suas formaturas venderam mais ingressos do que a lotação da casa de espetáculo.
    Temos que repartir este ônus, este peso, não só com os responsáveis facilmente identificados, temos que repartir este ônus com um governo Federal que não tem uma instituição de normalização sobre o assunto, que crie leis ou decretos válidos para todo o território nacional, temos que culpar o governo do estado por não fazer legislações complementares sobre este e os mais diversos assuntos que envolvem a segurança humana. Temos que culpar as prefeituras, por não possuírem legislação nem fiscalização. Não podemos deixar passar a culpa de um Corpo de Bombeiros em que os soldados e suboficiais são devidamente treinados, mas seus comandantes ocupam cargos de forma política sem treinamento para o comando que exercem.
    Para sairmos dos agentes públicos, devemos responsabilizar também as associações de Engenheiros e Arquitetos que tratam mais dos interesses coorporativos do que os interesses da sociedade, devemos culpar também os órgãos de imprensa e seus jornalistas, que trabalham somente de forma reativa aos incidentes, e não desempenham um jornalismo investigativo por exemplo comparando o que é a estrutura da defesa civil em outro países com o que está instituído no nosso.
    A lista é longa, assim como a tragédia também foi notável, e isto é simplesmente produto de toda uma sociedade que se preocupa com intensidade de árvores que serão cortadas numa rua de Porto Alegre e esquecem da quantidade vidas humanas que podem ser poupadas se o mesmo tipo de mobilização fosse feita para tragédias do dia a dia que ceifam as vidas de nossas crianças.

  2. Rogerio Maestri, teu comentário é pertinente e como és conhecedor técnico do assunto, merece uma reflexão. Tens todo o direito de expressar discordância com o enfoque que o Flávio Tavares deu em seu excelente artigo reproduzido nesta postagem.

    Concordamos integralmente com o ponto de vista do Flávio, ele sintetizou com maestria o que ocorre em nossa sociedade nestes parágrafos:

    “Armaram o cenário da morte, mesmo dizendo (ou pensando) que queriam divertir. Os fiscais municipais “deixaram por isto”, pois a burocracia só cuida dos papéis e, nos papéis, tudo se contorna com propina. “As licenças estavam em ordem”, dirá, certamente, a prefeitura ou quem de direito. E daí?

    Onde estava, porém, a responsabilidade empresarial? O correto empresário não vende água como se fosse leite, à espera de que o poder público, ao fiscalizar, alerte que água não é leite… Em Santa Maria, agora, tudo se juntou — sanha de lucro fácil, desídia e irresponsabilidade dos donos da boate além da fiscalização municipal carcomida pelo desleixo ou pelo suborno.”

    Essa, faz muito tempo, é nossa dura realidade…

  3. Simplificações e o reducionismos são as maneiras mais simples que se pode fazer numa hora destas, e estas simplificações não cabem para pessoas e jornalistas do porte de Flávio Tavares, isto que mais me surpreendeu.
    Se os proprietários desta casa noturna, Kiss, devem ser tratados como criminosos o que se fará com todos os demais proprietários de outras casa que estão na mesma situação e só tiveram a felicidade de não ter começado um foco de incêndio em seus estabelecimentos?
    Pergunto também, quantas casas noturnas, bares e restaurantes que foram autuados por fiscalizações e tiveram suas portas reabertas através de liminares e outros artifícios jurídicos? Vamos punir os juízes? Ou os advogados por litigância de má-fé?
    Outra questão importante, quantos jovens engenheiros e técnicos em segurança que passaram e passam pelas portas destas casas noturnas e com olhos treinados para visualizar situações de risco, devem ser punidos por omissão? Colocaria dentro desta categoria os bombeiros, os inspetores de companhias de seguro.
    É uma cadeia de irresponsabilidades que não fica restrita aos que diretamente aos envolvidos por este incidente.
    Coloquei como provocação o caso das árvores da nossa cidade, quando há interesse cria-se uma mobilização para impedir até obras que estavam devidamente licenciadas. Procuram-se pequenas brechas na lei de forma a impedir que seus interesses não sejam contrariados, porém quanto a segurança e a pequenas infrações que ocorrem no dia a dia todos se omitem.
    Quantas vezes vamos a um supermercado ou shopping e vemos pessoas estacionando seus carros em locais reservados para idosos e pessoas com deficiência física. Não fazemos nada, simplesmente porque achamos que os direitos da cidadania deve ser garantido por fiscais ou elementos das forças da ordem!
    A minha indignação é contra a laxidez de toda a nossa sociedade, coisa que não coaduno e tem me resultado grandes incomodações. Quem reclama de coisas básicas está sujeito a passar pelo ridículo e ouvir respostas do tipo:
    – O senhor é funcionário da loja?
    Ou outra, como:
    – Reclame a polícia!
    Somos uma sociedade em que quem deve agir são os outros, jamais nós mesmos, e o exemplo do ocorrido nesta casa de espetáculo é típico.
    Centenas de pessoas poderiam ter agido e evitado esta tragédia, porém agora procuramos malhar o Judas, numa catasrse para expirar todos os nossos pecados de omissão.
    Eu já tenho uma determinada idade que entrar em casas noturnas do tipo Kiss fica algo ridículo, logo neste caso não posso expressar o que seria o meu comportamento, porém pergunto a todos que leem ou até mesmo escrevem neste portal.
    – Quantos passando pela porta de uma casa noturna, com o mesmo nível de segurança do que esta, tomaram alguma atitude?
    Pois bem, quem nada fez, tenha uma certeza, parte da culpa pela tragédia lhes pertencem.
    .
    Agora voltando ao leite e leite com água. Quem vende leite com água sabe que está infringindo a lei! Porém quem abre uma casa noturna e obedece as PÍFIAS normas de segurança existentes está infligindo a lei?
    Vi nestes dias por reiteradas vezes declarações do Comandante do Corpo de Bombeiros de Santa Maria e do Prefeito da mesma cidade declarações que a casa estava de acordo com as normas de segurança existentes.
    Faltou fiscalização? Acho que não. Poderia um inspetor ou fiscal da prefeitura local, baseado no seu conhecimento, interditar a dita casa de espetáculos? Certamente que não.
    Em nosso país se um inspetor de segurança não estiver seguindo não os seus conhecimentos, mas sim normas estritas estabelecidas por leis atrasadas, que a cada inovação tecnológica se tornam anacrônicas, ele estará completamente a desabrigo de qualquer apoio público ou jurídico, podendo até ser punido por abuso de autoridade.
    É fácil senhores, colocar a culpa em poucos e nos livrarmos da nossa responsabilidade coletiva.
    É fácil, senhores, comparar a venda de leite batizado com a irresponsabilidade e IGNORÂNCIA de proprietários de estabelecimentos de diversões.
    O difícil é trazer para si a culpa pela omissão de um cidadão que tem direito e obrigação de denunciar, colocando sua integridade física e moral em jogo, enfrentando as pequenas e grandes infrações do nosso dia a dia.
    .
    .
    Essa sim, faz muito tempo, é nossa dura realidade…que é realimentada por textos simples e reducionistas, que reproduzem o mero clamor popular daqueles que não tem seus direitos respeitados, NEM FAZEM NADA PARA SER RESPEITADO.

  4. O excelente artigo do Flávio Tavares não é uma simplificação nem reducionismo. É um texto que faz pensar muito, tendo apenas cinco parágrafos. Não acreditamos que mesmo alterando a legislação e normas técnicas sejam evitadas tragédias como essa e também as tragédias causadas pelos desmoronamentos no Rio, entre tantas outras. O que deve haver é uma mudança de mentalidade, especialmente na sociedade que aceita e muitas vezes compactua com esses “jeitinhos” que convivemos no dia a dia, isso está bem claro no texto do Flávio

  5. Não é uma questão de acreditar ou não, se a capacidade da boate fosse estimada de forma correta, supondo uma lotação que ocorre nas boates e congêneres, e com isto tivéssemos três ou quatro portas a mais com ferragem anti-panico, no máximo teríamos algumas pessoas feridas.
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    Determinações deste tipo impedem que criminosos ou mentecaptos como os donos da Boate e os líderes da Banda, provoquem a morte de centenas de pessoas.
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    Outro exemplo, se fosse obrigatório a colocação de sprinklers como ocorre em outros países todos seriam salvos e só ficariam molhados, podendo até continuar a festa.
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    Em acidentes há uma série de malfeitos que se somam, e contra esta baixa probabilidade de ocorrer estes eventos, devemos contrapor uma grande quantidade de soluções para evitá-los.
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    Não sei porque devemos ficar no primarismo da prevenção de acidentes pensando que os donos das boates jamais colocarão pessoas a mais do que é aconselhado, que as bandas serão compostas de senhores sisudos e responsáveis, e mais outras coisas que dependem da vontade e não de instalações físicas e permanentes.
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    As pessoas são o que são, e não é porque há leis que impedem atos como superlotar ou ascender tochas em ambientes fechados que isto não ocorrerá, incêndios deste tipo já ocorreram em inúmeros países, e isto não é devido a exportação do jeitinho brasileiro.
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    Quanto ao texto do Flávio Tavares, é um arremedo do que este grande jornalista já fez na sua vida, infelizmente nem todas as pessoas brilhantes conseguem brilhar o tempo todo.

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