Devemos repensar todo o nosso pensamento econômico

Trecho do excelente documentário “Lutzenberger: For Ever Gaia” de Frank Coe e Otto Guerra.
O ambientalista José Lutzenberger, figura de grande expressão no movimento ecológico brasileiro e internacional, aponta problemas cada vez mais atuais.
Fala no crescimento econômico e o mercado.

Do Jornal Extra Classe:

O dia em que Lutzenberger desafiou Collor

Por Guilherme Kolling

http://www.sinprors.org.br/extraclasse/nov07/cultura.asp

Em março de 1990, o ecologista José Lutzenberger assumiu a Secretaria de Meio Ambiente, do governo Fernando Collor. Em vez de dar ouvido às críticas, ele preferiu ser fiel a sua tese de que não basta protestar, é preciso agir. E assumiu a pasta com a missão de organizar a Eco-92, no Rio de Janeiro.

Ficou dois anos no cargo. Saiu a poucos meses da Conferência Mundial para o Meio Ambiente, numa demissão que não foi devidamente esclarecida. Em 2001, após um jantar na casa de amigos, já relaxado, Lutzenberger falou dos mais diversos assuntos e lembrou do episódio.

A história está registrada no livro Pioneiros da Ecologia – Breve História do Movimento Ambientalista no Rio Grande do Sul (JÁ Editores, 232 páginas), de Elmar Bones e Geraldo Hasse, cuja segunda edição chega às livrarias em novembro.

Lutzenberger explica que viajava muito, não só para organizar a Eco-92, mas também para acompanhar o presidente. E numa dessas excursões à Europa que o desentendimento ocorreu, causado pela franqueza do ambientalista.

“Um dia estávamos o Collor e eu no gabinete do primeiroministro da Áustria, naquela é poca era o Branitski. Aí o Collor, naquele inglês todo enrolado dele, fez o discurso comum dos terceiro-mundistas: ‘Nós somos um país pobre. Estamos precisando da ajuda de vocês, países ricos’.

Eu fiquei puto da vida, mas deixei eles falarem. Como ele sempre me dava a palavra depois, só olhei para trás para ver quem estava ali. Sempre tem uns caras do Itamarati junto. Naquele dia havia só dois deles, que sabiam inglês, mas não alemão. Então falei em alemão e disse para o primeiro-ministro:

— Olha, nós brasileiros temos um país incrivelmente rico. Vocês austríacos não podem nem imaginar como somos ricos. Vocês têm um território de 83 mil km2. O nosso território é de 8,5 milhões de km2, isto é, mais de cem vezes maior que o de vocês. Metade do território de vocês é de montanha gelada. Dá para fazer ski e ganhar um pouco com o turismo. Aqueles lindos vales verdes de vocês são lindos, frutíferos, mas tem oito meses de vegetação por ano. A maior parte do Brasil, com exceção daqueles desertozinhos lá do Nordeste, tem 12 meses de vegetação por ano. Nós temos um clima maravilhoso. Temos muitos recursos.

E o Collor só perguntando, não estava entendendo nada. No fim, eu disse: ‘Mas nós somos um país muito pobre. Incrivelmente pobre. Não se imagina como nós somos pobres em político decente’. Na saída, o Collor me perguntou: ‘Lutz, por que o homem riu tanto?’ Aí eu expliquei para o Collor o que eu tinha dito. Ele deu uma risadinha amarela. Três semanas depois me mandou embora”.

Depois de relatar o fato para os amigos, o ecologista ainda reforçou sua idéia sobre o Brasil: “ Somos um país extremamente rico, temos 12 vezes mais território por habitante do que o alemão, umas 30 vezes mais que o holandês. Como pode existir brasileiro sem direito a um terreno? Se na Holanda que tem um território de 40 mil km2 e 17 milhões de habitantes não tem problema, porque nós temos que ter? É uma questão de modelo e de governo decente”.

3 pensamentos sobre “Devemos repensar todo o nosso pensamento econômico

  1. Bem é muito bonito o discurso do Lutzenberger, porém não podemos esquecer que ele foi ministro de um dos governos que mais desregulamentou tudo e mais entregou o país as transacionais.

    Fica fácil fazer um discurso ambiental e depois participar da farra do boi.

  2. José Lutzenberger não era um ativista de esquerda, era um ambientalista.
    Ele mesmo depois disse que o governo Collor era corrupto e esse foi um dos motivos de terem “saido” ele da Secretaria Especial do Meio Ambiente do governo federal.

    Mas sua participação na Secretaria foi marcante:

    Em março de 1990, foi nomeado secretário-especial do Meio Ambiente da Presidência da República, em Brasília, durante o governo de Fernando Collor de Mello, onde permaneceu até 1992. Nesse período, teve papel decisivo na demarcação das terras indígenas, em especial a dos índios Yanomami, em Roraima, na decisão do Brasil de abandonar a bomba atômica, na assinatura do Tratado da Antártida, na Convenção das Baleias e na participação das conferências preparatórias da Conferência Mundial do Ambiente, a Rio-92.

    Veja aqui:

    E leia aqui: http://www.agirazul.com/Eds/ed5/demi.htm

  3. Não estou falando em corrupção, estou falando em desregulamentação, ou seja deixar as forças do mercado assumir o controle, ou seja se querem poluir o mercado após dirá que eles estão errados.
    Quanto a saída do governo Collor ele foi praticamente até o fim, e se ele declarou que era um governo corrupto aí é pior, eu não estava entrando no mérito.
    O governo Collor retirou da constituição e revogou uma série de leis que permitiam o Estado controlar a Iniciativa Privada em questões ambientais, o mesmo governo desarticulou uma série de entes públicos que monitoravam vários aspectos pertinentes ao meio ambiente, inclusive acabou com o único órgão federal que planejava e fazia obras de saneamento.
    Não sei se a contribuição de Lutz foi tão notável assim.

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