Ideias alheias, por Flávio Tavares

Jornal Zero Hora – 28 de fevereiro de 2010 | N° 16260

ARTIGOS

Ideias alheias, por Flávio Tavares *

Quando as ideias dos outros coincidem com as nossas, não são ideias alheias, mas também nossas. E, quando reiteramos ideias, só as multiplicamos. Volto, pois, ao projeto de “revitalização do cais” da Capital, aprovado pelos vereadores e que, em verdade, mata em definitivo as funções reais do porto. Com prédios de cem metros de altura, vai tapar e esconder o Rio Guaíba na área central da cidade, como se o belo fosse algo grotesco a ocultar, já que não se pode destruir.

Mesmo assim, será sancionado pelo prefeito José Fogaça, ao que se diz. Esvai-se a ilusão de que Fogaça o vete. O tal de “Porto Alegre é demais” será só frase de canção.

O vereador Sebastião Melo observou-me que só poderia ser assim: “O projeto foi elaborado pelo governo do Estado em parceria com o Executivo municipal e remetido à Câmara pelo prefeito. Portanto, seria improvável que a proposição de iniciativa do prefeito receba o seu veto”.

Construído pelos franceses em tempos de Borges de Medeiros, nosso cais é igual ao de Saigon (hoje Cidade Ho Chi Minh), no Vietnã. Ambos têm a mesma idade e idênticos armazéns centenários. Lá, porém, o cais continua cais onde atracam navios servindo à produção. Nem a guerra o paralisou.

Aqui, o “lobby” rodoviário (da onipresente Confederação Nacional de Transportes) acabou com as ferrovias e com a navegação fluvial e de cabotagem. Além de imensos rios, temos 8 mil quilômetros de costa marítima, mas os produtos gaúchos vão ao Pará em caminhão. E não há vida mais brutalizada que a do caminhoneiro, exposto até ao crime na estrada!

Das águas do Guaíba, passo às do Xingu, no Pará. Lembram-se dos tempos do general Figueiredo, quando Sting, o cantor britânico, e o cacique Raoni mostraram ao Brasil e ao mundo a triste sina dos indígenas da Amazônia? Dessa forma, paralisaram a ideia de construir uma gigantesca barragem no Rio Xingu que inundaria mais de 51 mil hectares de florestas, destruiria flora e fauna sem ter nenhum polo industrial próximo aonde levar eletricidade.

Leonardo Boff, nosso teólogo e filósofo do humanismo, lembra agora que o projeto megalômano da época ditatorial (engavetado em 1989) foi ressuscitado e ampliado pelo PAC do governo federal. A megausina de Belo Monte, a um custo entre R$ 17 bilhões e R$ 31 bilhões, pode ser responsável por um desastre ecológico “terrivelmente imprevisível”.

No projeto, “tudo é megalômano”, adverte Boff: inundarão 51.600 hectares de florestas, com um espelho d’água de 516 quilômetros quadrados, desviando o rio por dois canais de 30 quilômetros de comprimento e mais cem quilômetros de leito seco, submergindo a parte mais bela do Xingu, Volta Grande, e um terço de Altamira. Desalojará 20 mil pessoas, atraindo para as obras 80 mil trabalhadores. Produzirá 11.233 megawatts de energia nos quatro meses de cheias e menos de 4 mil MW no resto do ano, para levá-la a 5 mil quilômetros de distância. No transporte, perde-se de 20% a 30% da eletricidade.

Esse gigantismo é insensato, diz Boff: “Na crise ambiental global, todos recomendam obras menores ou com matrizes energéticas alternativas, baseadas no vento, no sol e na biomassa, que temos em abundância”. Na questão ambiental, porém, “o governo de Lula da Silva é inconsciente e atrasado e o PAC nos devolve ao século 19, em que a natureza é mera reserva de recursos”.

Pior ainda, frisa, é que o presidente mande a Advocacia-Geral da União processar os procuradores do Ministério Público que questionam as obras.

* Jornalista e escritor

Fonte: Jornal Zero Hora

Um pensamento sobre “Ideias alheias, por Flávio Tavares

  1. Tem décadas que não volto na minha ‘Porto Triste”. Moro no Rio.
    Havia o muro da vergonha, no centro. Não tínhamos o direito de ver o Rio Guaíba. Tudo murado! Vi muito o melhor por do sol do mundo, do décimo andar da sede do Banrisul, onde labutei.
    Que coisa, né?
    Sou fã do brilhante jornalista e escritor Flávio Tavares.
    Sem mais,
    Luciano Moojen Chaves

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