Porto Alegre: a altura máxima de prédios é de 52m

Mas a Câmara aprovou ontem prédios na beira do Rio Guaíba com 100m de altura!

Incrível.

A revisão do PDDUA, aprovado a poucos dias na Câmara Municipal de Porto Alegre, limitou as alturas de prédios para 52 metros nas grandes avenidas. Mas ontem a própria Câmara Municipal aprovou a alteração do regime urbanístico da região do Cais do Porto (Cais Mauá) com permissão para até 100 metros nas proximidades da Estação Rodoviária .

Isso é “coerência”?

Artigo do jornalista e escritor Flávio Tavares, na Zero Hora de 29 de novembro de 2009:

Nosso alegre porto, por Flávio Tavares*

Ainda criança, aprendi a desconfiar das unanimidades e das euforias. “Tudo o que não se questiona é falso”, – ensinava o irmão Antônio Luís, no colégio marista em Lajeado, nos anos 1940. Logo, repetia a frase em francês, inglês e alemão, para que não houvesse dúvida e entendêssemos, no fundo do coração, o malefício do “pensamento único”.

Sempre que retorno a Porto Alegre, mais a amo como cidade e mais antevejo ou percebo seus defeitos. Agora, cheguei num pequeno avião, em voo baixo, e me pareceu sobrevoar o caos de São Paulo: os acessos e saídas entupidos de veículos e algumas artérias novas – como a Terceira Perimetral ou o Viaduto Leonel Brizola – congestionadas tal qual a Farrapos ou a freeway, outrora “via livre” ao Litoral e, hoje, caminho às adjacências da metrópole.

A Capital cresceu como suíno em engorde – muita graxa e pouca graça. Em anos, o que será do trânsito e do transporte? Tempos atrás, nos orgulhávamos das “grandes obras” municipais que a propaganda apresentava como “a cidade rumo ao futuro e em progresso”.

O futuro campeonato mundial de futebol, porém, desmistificou a mentira: nosso sistema de transporte e locomoção é tão atrasado e desordenado, que torna inviável implantar um trem metropolitano subterrâneo ou de superfície.

***

Só o futebol (ou a inspeção da comissão da Fifa) nos alertou para a realidade.

Durante mais de 15 anos, o Aeromóvel esteve em contínuos testes e provas, indo e vindo num elevado junto à antiga Usina do Gasômetro, mas nenhum prefeito ou governador o levou a sério. Esse trem movido a ar podia (pelo menos) ter costeado o riacho pela Avenida Ipiranga e chegar a Viamão, mas foi descartado por “ser lento”. (Ou por ter sido criado por um engenheiro nascido aqui, sem vínculos com as multinacionais?)

Finalmente, o visionário Oskar Coester teve de abandonar a ideia de um transporte público limpo, movido pelo impacto do ar. Para compensar, elegemos o trânsito lento, poluente e poluidor dos carros e ônibus competindo por espaço com os caminhões, no começo ou fim da jornada de trabalho.

***

A população urbana cresce. Já não nos basta a atual cidade vertical, em que as casas baixas desaparecem. Agora, os vereadores decidiram aumentar em 10 metros a altura máxima dos edifícios no “macrocentro” (que vai do Menino Deus a Petrópolis e Moinhos de Vento), contrariando a moderna concepção de que a cidade não deve ser uma soma de sucessivos mausoléus para abrigar pessoas vivas.

Esquecidos de que a cidade deve ser uma comunidade, não um aglomerado disforme, os vereadores acabaram deturpando a ideia do próprio prefeito da Capital, que, num projeto já em si cauteloso, reduzia de 52 para 42 metros a altura máxima junto às avenidas, para cair ainda mais nos próprios bairros.

De que adianta alertar sobre a qualidade do ar e defender o meio ambiente urbano, se inventamos neologismos falsos, como o tal “solo criado”, para tentar justificar a cidade vertical, que tapa o azul do céu e, à noite, esconde as constelações?

***

Tudo o que hoje construímos transformar-se-á na cidade do futuro. Em 20 ou 30 anos, os nascidos neste momento serão adultos na cidade que nós lhes deixaremos como herança.

No convívio da cidade é que se desenvolve a vida. Cabe-nos decidir, em conjunto, se queremos aprisionar nossos filhos e netos em imensos prédios verticais – com ar artificial, grama sintética e “caminhadas” em esteira rolante – ou deixá-los à vontade numa cidade com verde, parques, jardins e um rio de verdade.

*Jornalista e escritor

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6 pensamentos sobre “Porto Alegre: a altura máxima de prédios é de 52m

  1. Sinceramente, ao invés de se preocupar se as construções à beira do Guaíba terão ou não esgoto tratado, sejam elas de 40m ou 100m, ficam nessa discussão de alturas de prédios. Quer coisa mais retrograda para a capital de um estado do que isto? Concordo em alguns pontos com as ideias daqui, mas as outras são completamente absurdas. às vezes me pergunto: aquele grupo que decidiu “dar um abraço” no guaiba para afirmar que ele é do povo, porque não entrou nele e tomou banho? A área do Pontal do Estaleiro sempre foi privada, ninguém tinha acesso. Aí quando quiseram fazer algo lá, o grupo do NÃO cria um vídeo de uma mulher dizendo “quero que meus filhos possam continuar vendo o por-do-sol”. Peraí, isso é o que eu chamo de apelar. Ninguém estava querendo afastar a população do Gasômetro ou de Ipanema que, vergonhosamente, são as duas unicas áreas que são razoáveis para a população frequentar. A área do estaleiro era fechada. Ninguém via por-do-sol nenhum ali.

    Porque vocês não protestam contra a poluição do Guaíba? Contra o dilúvio que suja o lago diariamente? Contra a vila Assunção, a Serraria, a Ponta Grossa, a Pedra Redonda, onde pessoas físicas pelo seu bel prazer fecharam o acesso ao Guaíba nessas regiões. O que eu consigo entender é que vocês gostariam é que a orla fosse um imenso parque – do Gasômetro ao Lami, para a população desfrutar. Mas acordem isso é uma capital, e o que faz as grandes cidades funcionarem é o dinheiro. Ninguém investirá num projeto desses se não haverá lucro financeiro para ninguém. Se isso um dia viesse a acontecer, não levaria muito tempo para a dita praça estar tomada de lixo e marginais. Aí pessoas como eu não a frequentariam, porque sabemos como é o policiamento.

    Então ao invés de só reclamarem aprendam a valorizar a cidade de vocês e a desejar o progresso dela. O pontal teria área privada? Sim, mas também teria um amplo espaço aberto ao público em geral – só isso já seria muito melhor do que aquele monte de escombros e sujeira que tem lá hoje. Querem fazer prédios comerciais e residenciais no cais? Claro, isso trará lucro e deixará a região sempre viva, e além disso teremos uma grande área para desfrutarmos do mínimo que uma capital do porte de POA deveria oferecer. O Cais hoje é uma área abandonada e isto está prestes a mudar. Parem de reclamar um pouco e lutem pelo progresso de Porto Alegre e comecem a agir como habitantes de uma CAPITAL, essa história de só construir praças aqui, praças ali deixem pro interior (sou de lá e sei como funciona).

  2. Temos por norma não publicar comentários longos, mas em certas situações fugimos a essa regra. O comentário do Marcelo merece ser publicado e ter respostas:

    Faz algum tempo que os integrantes do Movimento reclamam da imundície do Guaíba, do não tratamento do esgoto, inclusive tem um álbum de FOTOS de um passeio de barco para constatar isso, promovido pelo Fórum das Entidades da Câmara com link na barra da direita. Nossas atividades não se resumem a colocar fotos, textos e vídeos neste Blog. Acesse as fotos no “A Imundície do Guaíba” e veja. Caso não queira procurar, o link é esse: http://picasaweb.google.com/amigos.da.goncalo/APoluiODoGuaBa#

    Nós queremos que o Guaíba volte a ser balneável e por isso vários membros do Movimento em Defesa da Orla do Rio Guaíba querem evitar que ele fique MAIS poluído ainda.

    A área do Estaleiro Só era pública e foi cedida para o Estaleiro poder operar. Leia em nossos posts e também links para o jornal JÁ: http://www.jornalja.com.br/2009/04/30/pontal-do-estaleiro-na-origem-uma-area-publica-2/

    Quem deixou a área degradada foi a iniciativa privada! Compraram a área em leilão e só deixaram acumular lixo lá.
    Leia nossas postagens sobre a área do Estaleiro…

    Pode haver lucro para investidores, o que não pode haver é espigão de 100m de altura, especialmente na beira do Rio. Leia nossos posts…

    A grande diferença que existe é a visão e definição de “progresso”. Ontem, por exemplo, foi derrubada uma emenda que destinaria uma área no Cais Mauá para utilização da Feira do Livro! Isso será “progresso“?
    Para nós, o progresso sem educação, cultura e verdadeiro desenvolvimento intelectual NÃO É O PROGRESSO QUE QUEREMOS. No nosso entender, nós valorizamos a cidade muito mais que aqueles que pensam que progresso é apenas colocar mais carros nas ruas e liberar alturas e adensamento na cidade. A cidade existe para as pessoas que nela vivem, não para os que delas se servem para apenas lucrarem como se ela fosse uma simples mercadoria.

    Por favor, leia nossos textos antes de fazer críticas infundadas.

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