A maldição do Pontal

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A MALDIÇÃO DO PONTAL

Alguns vereadores de Porto Alegre querem que a Câmara ganhe o Troféu Trapalhada 2009. Estão fazendo um belo esforço para chegar a tão nobre fim. Depois de aprovarem a lei que, apesar do aborrecimento de uma consulta popular, permitirá a construção de residências às margens do Guaíba, eles estavam muito felizes. Estouraram espumantes. Congratularam-se. Riram dos ecologistas fanáticos. Debocharam da bicho-grilice dos anacrônicos. Aí apareceu o arquiteto oficial e botou a boca no mundo: ‘Vocês desapropriaram metade do terreno do Pontal com essa emenda de Airto Ferronato que garante a preservação de 60 metros na orla’. Foi um balde de água suja e fria do Guaíba. Houve quem balbuciasse: ‘Puxa, tentamos fazer o melhor’. Ou quem se justificasse: ‘O senhor devia ter nos falado disso antes’. Murchou geral. Vale relembrar que a lei federal das áreas de proteção permanente prevê 500 metros de preservação à beira de rios com mais de 600 metros de largura. Mas, como se trata de uma área de urbanização consolidada, há margem (duvidosa) para interpretações. Sem contar que uma comissão inventou, nos anos 1970, que o Guaíba seria um lago, embora essa pirueta jamais tenha sido consagrada, como se andou espalhando, por qualquer decreto governamental ou legislação, o que implicaria preservar apenas 50 metros (ou 30 metros, por ser área urbana consolidada). Daí a indignação do ‘urbanista’, parece que o mesmo que, no governo de Alceu de Deus Collares, desempenhando uma função oficial, já sonhava em privatizar a beira do rio Guaíba. Neuzinha Brizola também preferia praia com lajota. Melhor ainda é com mármore.

Nos 60 metros preservados, segundo Airto Ferronato, a ideia é construir um ‘cinturão verde, com uma avenida, um passeio público e uma ciclovia’. Essas coisas visionárias e de interesse público que pegam na Europa atrasada (Holanda, França, Alemanha, Escandinávia) e enfrentam resistência ao Sul civilizado do Equador. O cinturão verde não cobriria só o Pontal, mas correria do Lami ao Centro da cidade. É o que se chama de política de conjunto, de visão macro, até mesmo de concepção holística ou simplesmente de pensar sem o bolso. Ou a bolsa. Um empresário teria dito, no entanto, que para uma ciclovia e uma árvore de cada lado não se precisa mais de 5 metros de espaço. Sem dúvida, faz sentido. No Japão. Dependendo da árvore e da bicicleta, 2 metros.

Diante desse erro crasso (general romano que quis pegar um atalho e acabou encurralado e massacrado) dos vereadores, que impedirá os felizes residentes do térreo do Pontal de quase molhar os pés sem sair da rede, a correria foi geral. Que fazer? Que c…onfusão! Surgiu uma ideia fantástica. Eu coro só de contar. Ainda fico vermelho. E não só por ser colorado. Estou com vergonha. Não posso acreditar. Bem, vou falar, é a minha obrigação de cronista, sou pago para isso. Lá vai. Tem vereador propondo, na maior cara de pau, na latinha, que o prefeito José Fogaça vete de novo o projeto aprovado. Assim ele voltaria à Câmara e poderia ser reformulado, salvando-se o precioso patrimônio dos investidores. Eu tenho uma sugestão para os empresários do Pontal: desistam. Há uma maldição que atrapalha qualquer projeto que envolva essa área. Especialmente projetos de vereadores apressados. O atalho pode ser um caminho sem volta. Crasso que o diga. Salvo se o prefeito vetar.

Texto do escritor e jornalista Juremir Machado da Silva, no jornal Correio do Povo, em 31 de março de 2009.

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