Modelo Dubai?

Durante todas as discussões sobre a especulação imobiliária na orla do Rio Guaíba, ouvimos muita gente (inclusive vereadores) defendendo o “modelo Dubai”. Diziam que gostariam de ver  o “modelo Dubai” em Porto Alegre. Por isso, apoiavam a construção de espigões na orla, mesmo mudando leis municipais que desrespeitam a legislação federal de proteção ambiental.

Atualmente, essas pessoas devem estar bem preocupados com o que está acontecendo por lá.

Do Blog Interpretando, em 22 de outubro de 2008:

“Se há uma coisa que a cidade sabe fazer é construir: um terço dos guindastes do mundo está aqui, a maioria deles diretamente em frente à minha janela no hotel. Tento contá-los, mas desisto no número 70. O mais alto ergue-se 1 quilômetro no ar, sobre o Burj Dubai, que já é o edifício mais alto do mundo, e ainda não está terminado. No mês que vem será inaugurado o maior shopping center do mundo, o Mall of Arabia, e pouco depois você poderá pousar no maior aeroporto do mundo, com seis pistas, e do tamanho da ilha de Hong Kong.”

Pode parecer um pouco de exagero, as condições são diferentes, o governo é diferente, mas isso que acontece em Dubai é o melhor exemplo da tendência que está tomando conta do mundo, incusive de Porto Alegre. Dubai é gigante, tem prédios enormes, é o capitalismo máximo no meio de um mundo muçulmano, com um governo autoritário. Mas o mais incrível é que tudo isso aconteceu de uma hora para outra. Em 30 anos, Dubai deixou de ser um deserto para virar uma metrópole, uma megalópole. Porto Alegre nao vai virar Dubai, mas está assumindo a mesma mentalidade. É isso que a gente quer? Esses prédios enormes anulam as pessoas, afastam, criam uma sociedade impessoal. Dubai atraiu o mundo inteiro para lá. As pessoas quase não falam mais árabe. Só se ouve o inglês. A cidade ganhou dinheiro com o turismo, mas e daí? As condições de vida são péssimas, a liberdade é mínima. Economia rica não é garantia de vida melhor.

O trecho entre aspas é da Carta Capital da semana passada. Não encontrei o texto no site, mas achei ele aqui e tenho a revista para quem quiser emprestado. Vale muito a pena. É a desmistificação de uma cidade emergente, fantástica até, exótica e que tanto chama a atenção. E melhor, a matéria foi feita por alguém que esteve lá (Carole Cadwalladr), que viveu Dubai por um tempo. Foi comprada do The Observer, e vale pela reflexão sobre o mundo. É grande. Na verdade é enorme, mas flui tri bem a leitura. É só tentar começar que vai até o fim.

O Globo, dia 21 de março de 2009:

Crise desmancha castelo de sonhos de Dubai

DUBAI – Um guia de turismo alerta: “Dubai não é destinação para mochileiro sem dinheiro”. De fato, em seis anos, esse emirado no Golfo Pérsico sem muito petróleo conseguiu o inusitado: atrair investimentos do mundo inteiro pela ousadia e extravagância de seus projetos. São megacidades de luxo, o prédio mais alto do mundo, o único hotel sete estrelas do planeta, pista de esqui dentro de shopping, ilhas construídas do nada.

Dubai virou uma espécie de Disneylândia dos milionários e se fixou como ponte financeira e de comércio entre Ocidente e Oriente. Mas esse castelo de sonhos está se desmanchando com a crise, conforme revela reportagem de Deborah Berlinck na edição deste domingo do GLOBO. O estacionamento do aeroporto hoje coleciona cerca de três mil carros abandonados por investidores estrangeiros quebrados. Quem é demitido tem um mês para deixar Dubai. Em fevereiro, segundo um especialista, 40 mil vistos para estrangeiros foram cancelados.

– Dubai é o símbolo internacional da recessão global. Hoje temos evidência de que o problema é muito sério – avalia o especialista inglês Christopher Davidson, que previu a atual crise no livro “Dubai: a vulnerabilidade do sucesso”, não publicado no Brasil.

Crise que também atinge empresas brasileiras que operam em Dubai, como a Engeprot, de Curitiba. Ela vende tecnologia de construção e serviços de engenharia para construtoras. Ou seja, está no epicentro da crise. A Engeprot é a última de uma cadeia que começa com megaempreendedoras (como a Nakheel) desenvolvendo projetos. Entram empreendedoras de médio porte, que vendem para investidores (estrangeiros, na maioria), que lançam prédios para construtoras. Até a crise, tudo era bonança.

– Prédios de 300 a 400 apartamentos eram vendidos num contrato só. Nunca vi isso – afirma Omar Khaled Hanaoui, sócio-diretor da Engeprot.

Ele diz que os pagamentos estão atrasando: de um prazo de 45 a 60 dias, agora recebe após 90 a 150 dias. Mas a Engeprot está relativamente bem. Das 12 obras em andamento, com faturamento previsto de US$ 15 milhões este ano, apenas duas desaceleraram. Já o maior projeto da Engeprot em Dubai – um complexo de shopping com estacionamento, supermercados e duas torres de 45 andares – foi paralisado em dezembro. Hanaoui diz que o projeto será retomado “nos próximos meses”.

Já a também brasileira Odebrecht – que não tem projeto em Dubai, mas um contrato com a Dubai Ports World para construir um terminal no Porto de Djibouti, na África, avaliado em US$ 400 milhões – diz não ter sido afetada. Ela garante que as obras, com conclusão prevista para julho, seguem em ritmo normal. Assim como suas obras no emirado vizinho, Abu Dhabi.

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4 pensamentos sobre “Modelo Dubai?

  1. Pingback: Ainda querem que Porto Alegre vire Dubai? « Cão Uivador

  2. Este tipo de política é de alto risco. Como Dubai fica no meio do deserto, precisa trazer quase tudo de outros lugares, incluindo água e alimentos. Qualquer crise no suprimento e o caos se instala. Um atentado terrorista, golpe de estado, desastre ambiental e pára tudo. Em vez de gastar seus petrodólares com estas doideiras, estes xeques deveriam é estar investindo em formas sustentáveis de produzir água e alimentos no deserto para a sustentar a própria população na era pós-petróleo. Do contrário, algum dia estes espigões todos poderão estar vazios e o povo não terá nem o que comer.

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