UMA PONTA DE CINISMO?

UMA PONTA DE CINISMO?

Li num jornal que os vereadores de Porto Alegre devem derrubar, nos próximos dias, o veto do prefeito José Fogaça ao projeto Pontal do Estaleiro, mandando para o esquecimento o referendo popular. Eu não posso acreditar nisso. Sou ingênuo. Ainda não perdi a virgindade política. Segundo o texto que li, nossos representantes aproveitariam os interesses de Grêmio e Internacional de também construir em áreas de preservação permanente ou de alterar o plano diretor da cidade e, com uma torcida neutralizando a outra, aproveitariam para fazer passar suavemente o Pontal do Estaleiro. O futebol seria barriga de aluguel do pontal. Não posso crer. Como poderiam os mesmos vereadores que propuseram um referendo ao prefeito, numa saída honrosa para um impasse, jogar no rio a solução da qual eles mesmos se têm gabado tanto?

Como gosto dos nossos edis e sei que muitos deles são puros e inocentes como criancinhas de berço, darei uma sugestão: cuidado com esse tipo de afirmação da mídia. Pode ser uma armadilha ou um desejo. Algo do tipo ‘podem ir, que a pista está livre’. Não está. Há quem aposte que o veto será derrubado no dia 29 de dezembro, antevéspera do Ano-Novo, quando metade da população já estará abrindo a primeira garrafa e a outra metade estará a caminho da praia. Não acredito. Seria um pontal de cinismo. Eu, de minha modesta parte, não creio que os vereadores sejam contra a preservação do maior capital do futuro, a natureza. O Pontal do Estaleiro ficaria quase dentro do Guaíba. Ali não se tem de colocar 1 só milímetro de concreto. Nem comercial. Nem residencial. O melhor é que seja um parque. A alteração da lei, quando Tarso Genro era prefeito, permitindo certas edificações na orla, foi um erro. No passado, o Guaíba deixou de ser rio e virou lago para que se pudesse tentar fugir das leis de preservação. Não colou. A lei orgânica assegura que o interesse privado não pode se sobrepor ao da coletividade.

Certos vereadores podem estar com medo de decepcionar o Bom Velhinho. Mas não é preciso presentear a especulação imobiliária para se sentir legal ou com espírito natalino. Caros vereadores, não caiam nesse papo de modernidade. É conversa de camelô, de apreciador de mesa de fórmica e de vendedor de pirâmide. Só por causa disso, não temos mais uma rede ferroviária decente para transporte de passageiros como qualquer nação européia atrasada (França, Alemanha…). Nada é mais moderno do que árvore, grama, beira de rio limpa e grandes áreas verdes preservadas. O melhor presente de Natal seria Porto Alegre adquirir a ponta do Estaleiro, pelos míseros 7 milhões pagos pelo atual dono, para uso de todos.

As cidades do futuro serão avaliadas pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e pelo ICN (Índice de Conservação da Natureza). Há quem chame os ecologistas de ‘ecochatos’. Muito piores são os ‘investimalas’. Esses só pensam em dinheiro. A qualquer preço. A qualquer custo. Contra qualquer lei. São os mesmos que eram contra qualquer lei antibagismo, visto que isso geraria desemprego, afetaria impostos, diminuiria verbas publicitárias e prejudicaria poderosos interesses. É gente radical, xiitas do cimento, fundamentalistas, contra tudo que não possa ser convertido em moeda sonante ou privilégios. Nossos vereadores são idealistas. Eu sei.

Texto do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva,
publicado no jornal Correio do Povo em 19/12/08

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